Era sábio, engenheiro e operário", mas para seu ’azar’ nasceu no Brasil,
"onde tudo é grande, menos os homens

Por Hamilton Almeida (hamilton_xxi@yahoo.com), especial para J&Cia.

Jornalistas & Cia., edição 751, 7 a 13 de julho de 2010.

Um antigo jornal dedicado à colônia espanhola que circulava em São Paulo - La Voz de Hespaña- registrou com precisão
o momento histórico das experiências inéditas de comunicação sem fio realizadas por Roberto Landell de Moura, pioneiro
das telecomunicações.

Um longo artigo foi escrito por J. Rodrigo Botet em 16 de dezembro de 1900. Reproduzimos alguns trechos dele:

"(...) Mas quanto e que cruéis sacrifícios de tempo, de dinheiro e de saúde custam ao Rev.Padre Landell as suas invejáveis
conquistas científicas! Quantas e que amargas decepções experimentou ao ver que o governo e a imprensa de seu país,
em lugar de o alentarem com o aplauso, incentivando-o a prosseguir na carreira triunfal, fizeram pouco ou nenhum caso de
seus notáveis inventos!"

"Se o Rev. Padre Landell houvesse nascido na Inglaterra, Alemanha ou Estados Unidos, tão logo as suas tentativas de
telefonia sem fio (denominação de época para o rádio, tal como o conhecemos) demonstrassemo bom caminho em que
o sábio inventor colocou os termos resolutivos de seu grande problema, governo, imprensa, banqueiros e povo, como sucedeu
na Espanha há alguns anos com o submarino Peral, ter-se-iam apressado em prestar-lhe todo o gênero de recursos, até que
chegassem a uma feliz conclusão as suas descobertas científicas."

"Mas o Rev. Padre Landell é brasileiro, e do Brasil já disse o famoso naturalista Agassiz que `tudo é grande, menos os
homens`, frase que, ao pronunciá-la perante ele, em tom de queixa, pelo esquecimento ou pouca atenção que os compatriotas
prestavam a seus prodigiosos inventos, foi imediatamente contestada, com a bondade angelical que o caracteriza, e com
a expressão franca e cordial tão peculiar aos filhos do Rio Grande do Sul, mais ou menos nestes termos:

(...)

Padre Landell tinha, entretanto, uma esperança: "Tenho a consoladora esperança de que, em curto interstício, minhas obras
científicas brilharão como o sol do meio-dia, em virtude da sorte de outros inventores que, mais afortunados do que eu, irão
descobrindo meus próprios inventos, concebidos e executados por minhas próprias mãos no silêncio de minha pobre e reduzida
oficina.
Bem sei que, em coisas de ciência, o que avança em relação à sua época não deve esperar justiça dos contemporâneos".

Botet acompanhou a evolução dos inventos de telegrafia e telefonia com e sem fios de Landell, tendo sido testemunha de
"várias experiências, todas de prodigiosos resultados". E arrematou: "Padre Landell é, ao mesmo tempo, o sábio que inventa,
o engenheiro que calcula e o operário que forja e ajusta todas as peças de complicadíssimos mecanismos".

Em uma palavra, gênio!