PADRE LANDELL DE MOURA:

 

(Nilton A. Romanowski, PY5DA - 1995)

"Santo de casa não faz milagres", famoso e infeliz brocardo, tão arraigado nos costumes nacionais igual a outras mentalizações negativas incutidas no nosso espírito popular, não se sabe por quem e nem porque, mas na verdade promovendo grandes estragos no poder criativo nacional. Por essa e outras atitudes coletivas, carregamos o peso de um histórico complexo de inferioridade.

Já é folclórica a nossa modéstia. Por mal ou por ignorância, julgamos nossos símbolos com certo desconforto, algo assim como se estivéssemos usurpando o direito de outros povos, de outros país, ao reivindicar para as realizações pátrias o direito à honra de alguma importante invenção ou à patente de algo novo. Foi assim com muita coisa, sendo a mais gritante, a mais sufocante e mais evidentemente provada, e tem sido ao longo dos anos, a invenção do avião por Santos Dumont, cuja honra é teimosamente contestada, nos estados Unidos pelos irmãos Whrigt, que só conseguiram dar um raquítico "pulo" com sua caranguejola, mais assemelhada a um instrumento para planeio do que um avião propriamente dito, "mais pesado do que o ar".

Afinal. o Brasil tem muito do que se orgulhar de seus filhos - estes às vezes não tem lá muito do que vice-versa.

Vejam por exemplo, o caso do Padre Roberto Landell de Moura, um gaúcho de Porto Alegre que, comprovadamente, conduziu experiências sérias e elaboradas as quais foram assistidas por inúmeras pessoas, e que proporcionaram a emissão de ondas portadoras de sinais e da voz. Ele conseguiu o milagre da utilização das ondas eletromagnéticas e conduziu, através delas, a voz humana e sinais, de diversos tipos, exatamente o que hoje caracteriza a função fundamental do rádio.

O PADRE ESCONDIDO:

Apenas um pequeno grupo de cidadãos, alguns do Brasil e outros de Portugal, país que orgulhosamente reivindica a plena origem racial de Landell de Moura, apesar de Landell, gritantemente anglo-saxão, se ocupa há vários anos do trabalho até agora oficialmente ignorado, de resgatar os feitos científicos notáveis desse nosso patrício.

Outro grande brasileiro, José Bento Monteiro Lobato, com certeza teria dito que padecemos de uma síndrome de "Jeca Tatú". Tão difícil de furar e acreditar como o primeiro poço de petróleo destas terras de santa Catarina.

Felizmente a obra científica desse padre não caiu totalmente no esquecimento. Muitos amigos e pessoas que tomam conhecimento da produção científica de Landell de Moura têm, isoladamente, tentado o soerguimento do nome e dos trabalhos por ele executados. dentre esses batalhadores destaco o amigo e colega Dr. Murillo de Souza reis (PY2AJN), homem de brilhante atuação social e política no Brasil e em Portugal, Deputado estadual por São Paulo, com o acervo de algumas legislaturas cumpridas, o Murillo, apesar de toda a sua capacidade e influência, em recente missiva à este escriba, lamentava estar "lutando muito sem a ajuda das autoridades".

Os portugueses foram além: fundaram a Ordem de Radioamadores Padre Landell de Moura, de cujo capítulo brasileiro tenho a honra de pertencer desde 1982 e mandaram confeccionar um busto de bronze doando-o ao Governo brasileiro para ser colocado no local das primeiras experiências do Padre, num ponto da Avenida Paulista, em São Paulo.

Murillo de Souza Reis escreveu um livro, de parceria com outro grande batalhador pela causa, o português Arnaldo Nascimento (CT4QI), onde descrevem toda a odisséia do brilhante e humilde cientista. Esse livro, "Subsídios para saldar uma dívida", recompões a cronologia dos trabalhos e é ilustrado com reproduções dos desenhos originais, fac-simile dos documentos que atribuíram as patentes de invenção, nos Estados Unidos e até algumas fotografias históricas, além de memoriais descritivos de autoria do inventor.

A TRISTE HISTÓRIA DE UM INVENTOR BRASILEIRO: (Excertos de um capítulo do livro "Subsídios para saldar uma dívida).

Nasceu Roberto Landell de Moura no dia 21 de janeiro de 1861 em Porto Alegre, filho de José Inácio Ferreira de Moura e de Sara Mariana Landell de Moura. Influenciado pelo irmão, segue a vida sacerdotal, estudando em Roma, no Colégio Pio Americano, doutorando-se mais tarde em física e química na Universidade Gregoriana.

Em Roma, depois de doutorado concebeu as idéias em torno de sua teoria sobre a Unidade das Forças Físicas e a Harmonia do Universo.

Foi ordenado padre no dia 28 de novembro de 1886.

Volta ao Brasil, onde permanece nas Casa dos padres da cidade do Rio de Janeiro. Segue para Uruguaiana em 1892. Mais tarde foi transferido para Campinas, São Paulo. Na sua residência, Bairro Santa, lança nova teoria. "Todo movimento vibratório até hoje, como no futuro, pode ser transmitido através de um feixe luminoso, e por esse mesmo fato poderá ser transmitido sem o concurso de outros agente".

Estabelecida esta teoria, imediatamente criou outra: "Todo movimento vibratório tende a transmitir-se na razão direta da sua intensidade, constância e uniformidade de seus movimentos ondulatórios e na razão inversa dos obstáculos que se opuserem a sua marcha e produção".

Uma das teorias do Padre que causaram até escândalo entre as "ovelhas" mais incultas: "Dai-me um movimento vibratório tão extenso quanto a distância que nos separa desses e outros mundos que rolam sobre nossa cabeça ou sob nosso pés e eu farei chegar a minha voz até lá".

Essas teorias, hoje perfeitamente compreensíveis até para o homem comum, todavia, à época valeram ao Padre Landell de Moura graves ultrajes que o marcaram para o resto da vida.

Em 1910, testemunhado por várias autoridades brasileiras, criou a "Lâmpada de Três Eletródios", ou seja, um tríodo que tanto servia para receber como para transmitir mensagens telegráficas, ou telefônicas, sem o fio emissor.

Em 1910 patenteia no Brasil sob o n. 3279, " um aparelho apropriado a transmissão da palavra à distância, com ou sem fios, através do espaço, da terra ou da água".

Em 1893 e 1894 o Padre havia realizado várias experiências na presença da imprensa e de várias autoridades, entre elas o embaixador britânico P. Lupton, fundamentando sua teoria das " ondas luminosas", transmitiu a palavra e não ruídos ou sinais, ondas chamadas por ele de "luminosas" mas que das realmente luminosas, diferiam apenas na frequência, portanto " ondas hertezianas". Marconi, somente a 2 de julho de 1896 patenteia na Inglaterra o "seu" invento - patente 12039 - de certo muito semelhante ao que Landell de Moura já havia apresentado.

Só em 1899 (cerca de três anos após a obtenção da patente) é que Marconi lançou através do canal da Mancha a seguinte mensagem: "Marconi envia ao senhor Branly seus respeitosos cumprimentos, através da Mancha, salientando serem estes brilhantes resultados devidos em parte à sua obra". Confessou assim, Marconi, provavelmente traído pelo peso da sua consciência, a importante contribuição do sábio francês Branly. É que na época, em diversos países vários curiosos e estudiosos faziam pesquisas com a finalidade de descobrir a transmissão de sinais, sem fios. Encontramos nessa maratona Hertz, Popoff, Henry, Lodge, Branly, Righi (que foi o mestre de Marconi e possivelmente o causador da ida do seu discípulo à Inglaterra onde foi patentear a "sua" invenção), isto depois de a Itália haver recusado fazê-lo por falta de material comprobativo...

Em 1895, com 21 anos, Gugliano Marconi fez, publicamente, a sua primeira dissertação sobre telegrafia sem fio e só em 1896 patenteou, na Inglaterra o "seu" invento. Enuqnato o Padre Landell de Moura, na presença de jornais e autoridades da época, deixa registradas as suas experiências em 1893/1894, fundamentadas em outras teorias, sem dúvida convergentes em vários aspectos.

Alguns inventos conhecidos do Padre Landell de Moura que ficaram registrados:

- Telefônio: Para transmitir a voz, música etc. com ou sem fios.

- Teleauxiofonio: A quinta essência da telefonia sem fios, em virtude do vigor e da clareza com que transmite a voz articulada a grandes distâncias, os físicos europeus e norte-americanos transformaram-no num poderosíssimo auxiliar do "Teatrofônio", ou seja, "Tel-fônio-alti-falante". (O nosso conhecido "som de amplificadores", tão usado nos shows de bandas, etc.). O "Telauxiofônio" é o moderno microfone que capta todos os ruídos do palco ou de uma grande orquestra, etc.

- Caleofônio: Também trabalha com fio. É a campainha do telefone que chama avisando que alguém quer falar;

- Anamatofono: Sem fio. Com o mesmo efeito do "Telauxiofonio" para transmissão e recepção;

- Teletilon: É a telegrafia fonética coma qual, sem fio, suas pessoas podem conversar sem que sejam ouvidas por outras;

- Ediofono: Aparelho para filtragem e depuração das vibrações parasitas, visando a reprodução de vozes e sons naturais.

Landell de Moura somente conseguiu patentear alguma coisa em 1900/1901 devido a perseguição, falta de amparo e à sua péssima situação financeira.

Viajou para os EUA e, em Washington, em 1901, com muita dificuldade, conseguiu a patente para cinco de seus inventos. The Patent Office at Washington não se satisfez com as explicações e exposições teóricas dos requerimentos. Os assuntos eram tão revolucionários que, por cautela, dada a grande responsabilidade perante o mundo, passaram a exigir que fossem apresentados, além dos desenhos e memoriais, aparelhos para experiências práticas. Cumpridas todas as formalidades foram-lhe entregues as patentes seguintes sob os números:

- 771917 de 11/10/1904 - transmissor de ondas;

- 775337 de 22/11/1904 - telefone sem fio;

- 775846 de 22/11/1904 - telefone sem fio, e mais outras.

Monsenhor Vicente Lustosa visita-o em Washington, a 7 de maio de 1904, comprovando a grande miséria em que o Padre vivia. As primeiras patentes haviam, porém, sido aceitas. Magnatas norte-americanos tentaram comprar seus inventos por somas muito grandes mas, mesmo com as privações que sofria, Landell de Moura não aceitou alegando: "Vou levá-la para a minha pátria, o Brasil, a quem compete entrega-la à humanidade".

ELE "INVENTOU" AS ONDAS CURTAS:

No Patent Office de Washington de 1901, consta já a recomendação para o emprego das "ondas curtas" para aumentar a distância das transmissões, isso enquanto Marconi as declarava inúteis na prática e, somente 20 anos depois, em 1924, reconsidera publicamente o seu GRANDE ERRO, tanto mais que quem o cometeu era considerado um grande sábio e o "inventor" do telégrafo sem fio. Na história da radiofonia conhece-se o episódio como o "célebre" passo atrás de Marconi. Lembremo-nos, leitores, que apenas há poucos dias, precisamente no dia 2 de abril passado, o nosso atual Presidente Fernando Henrique Cardoso, confraterniza-se com o Presidente da Itália por ocasião da comemoração dos cem anos de Marconi e o cita, claramente como o "inventor do rádio". O coitado do Padre Landell de Moura ainda não conseguiu sossegar, nem morto...Que país é este?

O OCASO DE UM SÁBIO:

Profundamente desgostoso, cansado de lutar, Landell de Moura colocou todo o seu trabalho, e que não foi pouco, pois abrangeu também outras áreas, dos estudo das "ondas do pensamento" hoje um bem guardado segredo de estado das grandes potências, à disposição do Presidente Rodrigues Alves, "para ser legado às gerações vindouras". Foi, isto sim, solenemente esquecido.

A mente desse ilustre brasileiro foi tão fértil que seria muito difícil esboçar um trabalho rápido com todos os detalhes principalmente necessários para uma avaliação digna desse gênio.

Era um filósofo na acepção da palavra. Os seus pensamentos vagueavam por campos tão distantes como insondáveis para a época. Ia de estudos parapsicológicos a estabelecimento de parâmetros científicos (lembrem-se que a parapsicologia somente se tornou ciência a partir de 1930). Alguns dos títulos de apontamentos no que resta de um antigo caderno do Padre, nos dão uma idéia de onde andava o seu pensamento avançado:

- Sobre o elemento R, o Periâneo;

- sobre a influência da circulação em relação a certos estados anormais;

- sobre a mudança de personalidade;

- sobre os átomos de outrora;

- sobre os sentidos da alma;

- as extremidades do mundo;

- sobre o ideal e a ficção;

- sobre o belo e o bom;

- o falso suposto em que vivemos;

- sobre os movimentos psíquicos de nossa alma;

- sobre a unidade das forças e a harmonia do universo

- a gênese das causas,

e muitos outros títulos mais de assuntos que ocuparam essa cabeça privilegiada por todo o período de sua vida.

UMA DíVIDA:

Como sugere o Dr. Murillo de Sousa Reis, todos nós brasileiros temos uma dívida para com Landell de Moura. Com esta reportagem estou tentando saldar um pouco da minha parte. Cada um que honre a sua. Quem sabe, aqui, deste cantinho, conseguiremos algo surpreendente, de novo, algo assim como um pequeno incômodo, poderá move-lo... Na nossa tão decantada administração pública temos homens de bem, ciosos de sua responsabilidade e com cultura bastante para iniciar indagações: " Afinal quem foi esse Padre?. Isso já será o suficiente. Esperemos que nossas crianças, num futuro próximo, já saibam quando lhe perguntarem - quem inventou o rádio?, responderem: - Padre Roberto Landell de Moura! Ave Brasil.