LANDELL DE MOURA, UM PIONEIRO DO RÁDIO, ANTES DE MARCONI

O Brasil tem figuras extraordinárias no campo das telecomunicações.

Entre elas, está Roberto Landell de Moura, o padre gaúcho que conhecia eletricidade e que, em 1893 e 1894, fazia experiências tão avançadas quanto as que Marconi só iria fazer dois anos depois. Landell merece que a história das telecomunicações lhe faça justiça. Seu trabalho, sua genialidade e, particularmente seu sofrimento ante à incompreensão que cercou seus inventos estão narrados num livro do teatrólogo Ernani Fornari: "O incrível padre Landell de Moura".

Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre a 1º de janeiro de 1861. Estudou no colégio dos Jesuítas. Sempre gostou tanto da Ciência quanto da Religião. Ordenou-se sacerdote em 1886, na capital do Rio Grande do Sul, depois de ter estudado por alguns anos na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde aprendeu física e desenvolveu seus primeiros estudos sobre a "Unidade ds forças físicas e a harmonia do Universo".

Transferido de Porto Alegre para São Paulo em 1892, o padre Landell de Moura foi pároco em Campinas e em Mogi das Cruzes. Na capital paulista fez suas experiências extraordinárias, conseguindo em 1893, transmitir sinais e sons musicais a uma distância de oito quilômetros, entre a Avenida Paulista e o alto de Santana, num sistema de telefonia sem fios. Na realidade, como provam seus desenhos e esquemas, foi ele o verdadeiro inventor da válvula de três polos, ou triodo, com a qual era possível modular uma corrente elétrica e transmiti-la, sem fios, a longas distâncias.

O mundo conhece, no entanto, atribui ao engenheiro norte-americano Lee DeForest a invenção da válvula eletrônica (triodo).

O mais triste em toda a história de Landell de Moura é que a incompreensão de seus contemporâneos, em lugar da glória, lhe trouxe o ridículo e a perseguição. Chamavam-no "lunático, louco, bruxo e diabólico". Nem os seus superiores religiosos foram capazes de apoiá-lo e chegaram a proibi-lo de continuar com suas "estranhas manias de inventar aparelhos elétricos e de tentar transmitir a voz à distância".

Os professores Nilo Ruschel e Homero Simon, do Departamento de Engenharia da PUC referiram-se às descobertas do padre Landell de Moura de forma incisiva e entusiástica:

"É impressionante como esse homem vivia adiante de sua época. Há afirmações em suas patentes relacionadas com o moderno sistema de microondas. É uma combinação exata da rede de telefonia - que já era bem desenvolvida no final do século passado - com as ondas hertzianas, o que é completamente original."

Na realidade, há poucos documentos sobre os trabalhos científicos do padre Landell de Moura. Mas esses papéis, reunidos no livro de Ernani Fornari, são largamente suficientes para comprovar que suas idéias chegaram a ser efetivamente mais avançadas do que as de qualquer outro inventor ou cientista de sua época. Landell de Moura, fugindo à incompreensão, viajou para os Estados Unidos em 1901, onde passou a enfrentar numerosas outras dificuldades, inclusive econômicas.

No entanto, arquivou no Serviço de Patentes dos Estados Unidos (U.S. Patent Office) três inventos originais para "um transmissor de ondas", um tipo especial de telégrafo sem fios e outro de um modelo pioneiro de telefone sem fios - os quais ganharam as patentes de números 771.917, 775.337 e 775.846.

Voltando ao Brasil, ainda não encontrou apoio entre os seus conterrâneos. Tentou fazer a demonstração de seus equipamentos em navios da Marinha de Guerra, no Rio de Janeiro, mas não foi levado a sério. Conta-se que, quando um auxiliar do Presidente Rodrigues Alves lhe perguntou a que distância queria que os navios ficassem da costa, para a realização das experiências, o padre lhe respondeu : "A quantas milhas quiser, pois meus aparelhos podem funcionar a qualquer distância e poderão servir, no futuro, para comunicações interplanetárias". O pedido foi arquivado, sob a alegação de que a "Marinha tinha coisa mais importante a fazer do que se submeter a experiências de padres malucos."

Era muita ciência para a época. Em homenagem à memória desse pioneiro ilustre, a Telebrás rebatizou seu CPqD, em Campinas (SP), com o nome de Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Padre Roberto Landell de Moura.

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Ethevaldo Siqueira, 1997