PADRE ROBERTO LANDELL DE MOURA

(Patrono dos Radioamadores Brasileiros) 21.01.1861 - 30.07.1928



Autora: PP5ASN, Alda Niemeyer (abril/85) 

Na história das comunicações humanas são conhecidas várias formas
 de transmissão de mensagens: sinais de fumaça, gritos, tambores, sinais 
gráficos, imprensa,   etc.. isto, para não citar todo o mais que conhecemos.

	Com a eletricidade, no século XIX veio uma mudança revolucionária. 
Samuel Nome patenteou nos Estados Unidos, em 1837, um aparelho: funcionava 
com eletro-magnetos e um código de traços e pontos. Já um  ano depois, 
inaugurava-se entre Washington e Baltimore a primeira linha telegráfica.  
A telegrafia havia se tornado uma realidade.

	Em 1876 Graham Bell patenteou o que ele designava de uma "telegrafia 
mais desenvolvida". Duas horas depois de Graham Bell haver entregue seus 
trabalhos  de patente, ingressou no Departamento de Patentes dos Estados 
Unidos o professor Elisha Gray, com descobertas similares.  Após disputa 
judicial sobre a questão, foi atribuída oficialmente a Graham Beli a 
invenção da telefonia.

	A descoberta da indução, por Faraday (1831), fez surgir a idéia de 
transmissão de sinais sem fios. A teoria sobre eletromagnética de Maxwell 
(1875), resultou no conhecimento de ondas eletrônicas, que foram 
experimentalmente comprovadas por Hertz em 1888. Lord Kelvin, em 1853, 
demonstrou as características vibraçoes dos condensadores.

	Calsecchi-Onesti observou em 1885 que fragmentos de metais entre 
dois eletrodos, resultam em considerável resistência. Mas foi Branley 
(1890) o pai da râdio-indução.

	Lodge (1894) e Popoff (1895) e, depois destes, Marconi, aprimoraram 
os coesores e possibilitaram a evolução do aparelho Morse.

	Com um oscilador de Hertz, uma antena de Popoff e um coesor de 
Branley, Marconi obteve sucesso em 1895 (em Pontecchi, Itália) ao enviar  
os primeiros sinais através de uma distancia maior.  A telegrafia sem fio 
já era uma realidade dentro da comunicação.

	Em fevereiro de 1896 Marconi foi à Inglaterra, onde, em junho do 
mesmo ano, patenteou seu aparelho, sob o número 12.039. Em 1897 ele fundou 
uma Companhia Telegrafica e em 1898 eram enviados sinais entre a Inglaterra 
e a França, por sobre o Canal, a uma distância de 30 km.

	Esta pequena revisão só nos faz recordar o que ocorria na Europa e 
nos Estados Unidos no campo da eletricidade e comunicação.

	No Brasil, isolado da possibilidade de intercâmbio de idéias ou 
experiências de cunho científico, viveu e trabalhou o	Padre Roberto Landell 
de Moura, o qual em 1893-1894 comprovadamente transmitiu a voz humana, a 
música e o soar de um relógio, a uma distância de 8 km, em São Paulo.

	Roberto Landeli de Moura nasceu aos 21 de janeiro de 1861 em Porto 
Alegre, Estado do Rio Grande do Sul. Ele era o quarto dentre os quatorze 
filhos de Inácio José Ferreira de Moura e Sara Mariana Landell de Moura. 
Descendente de portugueses por parte do pai e de escoceses do lado materno. 
O avô materno era médico, formou-se em Edimburgo, Escócia, e imigrou para 
o Brasil em 1824 ( Foi deste avô que ele recebeu o nome "Robert" e, 
provavelmente, também o amor pelas ciências.Roberto foi alfabetizado pelo 
próprio pai, depois freqüentou a Escola Básica "Professor Hilário Ribeiro" 
e posteriormente o Colégio "Professor Fernando Gomes". Com 11 anos 
ingressou no Seminário "Nossa Senhora da Conceição", em São Leopoldo, onde 
concluiu sua formação humanística.

      Todos os seus estudos dirigiram-se à profissão religiosa, pela qual 
sentia-se chamado. Com seu irmão Guilherme foi ao Rio de Janeiro, e depois 
para Roma, onde ambos estudaram Direito Canônico. Em 22 de março de 1878 
Roberto ingressou no Colégio Pan-Americano e freqüentava simultaneamente 
Física e Química na Universidade Gregoriana. Em Roma, no ano de 1886, foi 
ordenado, tornou-se Padre e rezou sua primeira missa.

	Já durante os primeiros anos de seus estudos , escreveu teorias sobre 
a "unidade das forças físicas e a harmonia no universo".

	Após concluída sua formação, em 1886, o Padre Landell (era como 
gostava de ser chamado) voltou pela França ao Brasil. Primeiramente 
permaneceu no Rio de Janeiro, no Seminârio São José.  O então capelão da 
corte brasileira, seu amigo,  adoeceu e pediu que o Padre Landell assumisse 
o cargo, junto a família do Imperador. Assim o Padre conheceu e tornou-se 
amigo pessoal de Dom Pedro II, travando uma intensa amizade que se 
fundamentava não só na religiosidade de ambos mas também em seu ardente 
nteresse pela ciência.

	Em 20 de fevereiro de 1887 o Padre Landell retornou a Porto Alegre, 
ao Convento do Carmo, rezando , então, a primeira missa em sua cidade natal.
O Bispo Dom Sebastião Dias Laranjeiras o nomeou capelão da Igreja do Bom 
Fim  incumbindo-o, também como professor de História Geral no Seminário 
Episcopal.

	Em 25 de maio de 1891 tornou-se vigário em Uruguaiana, onde 
permaneceu por poucos meses, antes de retornar a São Paulo. Por nomeação 
do Bispo D. Lino Deodato Rodrigues de Carvalho foi, sucessivamente, vigário 
em Santos, Campinas e Santana (na cidade de São Paulo).

Em Campinas atuou como pároco na Igreja do Carmo, de 28 de outubro de 1894 
atê 19 de dezembro de 1896. A par de seus trabalhos pastorais o Padre 
Landell achava tempo para dedicar-se a seus estudos científicos. E foi em 
Campinas que redigiu seus princípios e leis:
"1º- Tudo quanto até aqui e no futuro, puder ser transmitido através de um 
fio condutor, poderá ser transmitido através de um feixe luminoso, e por 
este mesmo fato, poderá também ser transmitido sem o concurso deste feixe 
luminoso".
"2º- Todo movimento vibratório tende a transmitir-se na razão direta da 
sua intensidade, constância e uniformidade dos valores ondulatórios; e na 
razão inversa dos obstáculos que se opõem  à sua marcha e produção."
"3º- Dai-me, pois, um movimento vibratório que ocupe o lugar do fio 
condutor, e tão extenso quanto é a distância que nos separa dessas outras 
terras que rolam sobre nossas cabeças e debaixo de nossos pés e eu farei 
chegar as minhas mensagens a essas regiões longínquas."

Se as duas primeiras teorias do Padre Landell já eram bastante avançadas 
para aquela época, mas foi certamente a terceira que encontrou uma total 
incompreensão por parte da classe religiosa.

      Dessa época de trabalhos e pesquisas nos restaram informações de 
pessoas que conheceram o Padre Landell, como por exemplo um relato de 
Senhora Maria Ribeiro de Almeida, que em 1928 escreveu no jornal "A União", 
no Rio de Janeiro:
"Certo dia, no ano de 1893, vi um sacerdote humilde e taciturno que subia a 
escadaria da Igreja da Glória, para ir conversar, na sacristia, com o 
virtuoso vigário que era Monsenhor Molina. Pessoas que já sabiam a que 
viera Landell de Moura à capital da República, rodeavam logo o célebre 
inventor. Cada um queria ter a honra de poder dizer um dia que o conhecera, 
que lhe apertara a mão, que ouvira de seus próprios lábios a narrativa 
maravilhosa das suas descobertas!..."
"Chamaram-me, também, para ouvir-lhe a palavra entusiástica e cheia de 
esperanças. Mas, ai, que a águia ferida no seu vôo altivo, pendia a cabeça 
em atitude de guerreiro vencido!"
"As pessoas reunidas em torno do Padre falavam baixinho, entre si, trocando 
idéias... e eu ouvia, indignada, apesar de ser uma criança, estas palavras 
dolorosas, que nunca mais pude esquecer:
"Foi-lhe negada a subvenção para as experiências do telégrafo sem fio e de 
um outro aparelho, que apanhará ondas sonoras, e fará ouvir qualquer voz de 
um continente a outro!...
"Nunca mais pude esquecer o Padre Landell de Moura."
Outro testemunho é o de Jaime Leal Velloso, publicado no "Jornal da Manhã", 
de Porto Alegre, de 16 de julho de 1953:
"Tenho residido 30 anos no Estado de São Paulo, dos quais 25 na capital, 
ouvi muitas vezes falar, ali, das experiências realizadas por aquele 
ilustre sacerdote (Padre Landell), de transmissões de telegrafia e 
telefonia sem fio, do alto da Av. Paulista para o alto de Santana, numa 
distância aproximada de uns 8 quilômetros em linha reta, fatos esses 
ocorridos mais ou menos entre os anos de 1890 a 1894."

   Ernani Fornari, em livro  "0 incrível Padre Landell de Noura", diz que 
essas experiências com transmissões sem fio foram realizadas com sucesso 
nos anos de 1883 e 1884, do que há registros.  Do mesmo livro sabemos com 
detalhes sobre algumas reações do clero de Campinas sobre uma dessas 
demonstrações do Padre Landell:
"... meia dúzia de fiéis desvairados, como um bando de energúmenos, havia 
invadido seu modesto mas precioso laboratório e destruído todos os seus 
aparelhos, ferramentas e utensílios."

      Todos esses dados confirmam claramente que o Padre Landell de Moura 
antecedeu a Marconi nas descobertas da radiocomunicação. Pois é de 
conhecimento oficial que Marconi fez seus experimentos em Pontecchio, em 
1895, quando enviou, pela primeira vez, seus sinais de Morse sem a ajuda 
de fios.

	De qualquer modo o Padre sempre reconstruiu seus aparelhos, e 
prosseguiu trabalhando e desenvolvendo seus inventos científicos. No 
"Jornal do Comércio", do Rio de Janeiro, de 10 de junho de 1900 lê-se a 
seguinte notícia:
	"No domingo próximo passado, no Alto de Sant'Ana, cidade de São 
Paulo, o Padre Roberto Landell fez urna experiência particular com vários 
aparelhos de sua invenção, no intuito de demonstrar algumas leis por ele 
descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade, 
através do espaço, da terra e do elemento aquoso, as quais foram coroadas 
de brilhante êxito.  Estes aparelhos, eminentemente práticos, são, como 
tantos coro1ários, deduzidos das leis supra citadas. Assistiram a esta 
prova, entre outras pessoas, o Sr. P. C. P. Lupton, representante do 
Governo Britânico, e sua família."

	No dia 16 de junho de 1900 o "Jornal da Manhã" relata sobre uma 
carta do Padre Landell ao Cônsul britânico,  Mr. Lupton, na qual ele 
oferece ao governo. inglês as suas invenções, por considerar-se a 
Inglaterra o pais mais desenvolvido da época. Nesta carta ele fala de 
cinco inventos. Diz-se, também   que nessa carta o inventor teria dito que 
caso o governo inglês não desejasse comprar suas descobertas, ele as 
cederia, também sem custos ao governo, ou, a alguma Universidade, Com a 
única condição de que o lucro delas decorrente fosse doado a algum 
orfanato ou instituição de ensino.

	Em lugar algum, nem mesmo nos diários do Padre, encontra-se o 
registro de qualquer resposta por parte do governo inglês.

	Os cinco inventos da carta, são descritos pelo Padre da seguinte 
forma:
	"Teleauxiofono - e a última  palavra, a meu ver, sobre telefonia sem 
fio, não só pelo vigor e inteligibilidade com que transmite a palavra, mas 
também porque, com ele, se obtém todos os efeitos do telefone "alto-
parlatore" e do "teatro-fone" , com esta notável diferença, que, tratando-
se de teatrofonia, é bastante um só transmissor, por maior que seja o 
numero de concertantes."
	"0 caleofono - como o precedente, trabalha também com fio, e é 
original porque, em vez de tocar a campainha para chamar, faz ouvir o som 
articulado ou instrumental. ~ muito apropriado para escritórios".
	"A anematofono - com o qual, sem fio, obtém-se todos os efeitos da 
telefonia comum, porém com multo mais nitidez e segurança, visto funcionar 
ainda mesmo com vento e mau tempo. É admirável este aparelho, pelas leis 
inteiramente novas que revela."
	"0 teletiton - sorte de telegrafia fonética com o qual, sem fio, 
duas pessoas podem-se comunicar, sem que sejam ouvidas por outra. Creio 
que com este meu sistema poder-se-á transmitir, a grandes distâncias e 
com muita economia, a energia elétrica, sem que seja preciso usar-se de 
fio ou cabo condutor. Disse "com este meu sistema" porque não faço uso de 
nenhum dos aparelhos ou das peças até hoje imaginadas para este fim, como 
bem para a cabal resolução do magno problema da telegrafia sem fio"
      "0 edifono - finalmente, serve para dulcificar e depurar das vibrações 
parasitas a voz fonografada, reproduzindo-a ao natural. Este aparelho 
tornar-se-á o amigo inseparável dos músicos compositores e oradores"
Esta é a re1ação dos cinco aparelhos que o Padre Landell ofereceu  à 
Inglaterra sem sucesso. O texto dessa carta está conservado na íntegra e 
foi divulgado pela imprensa.

      Após longos e cansativos anos o Padre pode, finalmente, patentear 
seus inventos no Brasil, aos 9 de março de 1901. Trata-se de um "aparelho 
para transmissão verbal com ou  sem fio, através do espaço, da terra ou 
da água, com sol ou chuva, fortes nevoeiros ou ate' ventos."

     Se fizermos uma rápida retrospectiva quanto às datas, chegamos às 
seguintes conclusões: 
Em 1893 foram negados ao Padre Landell todos os tipos de apoio às suas 
invenções. Provas e testemunhas dão conta de que as experiências se deram 
entre 1890 e 1894.
Se estes dados deixarem dúvidas, pode-se atribuir a Marconi os direitos de 
ser o inventor da telegrafia sem fio, pois este enviou seus primeiros 
sinais em 1895.
Em seguida, contudo, cabem ao Padre Landell os direitos de ser precursor 
da telefonia sem fio, pois suas experiências foram comprovadas e 
documentadas até junho de 1900, embora ele só tenha obtido  sua carta-
patente em março de 1901.

    Experiências com rádio-difusão foram feitas simultaneamente em outras 
partes do mundo. O "New York Rerald" divulgava tentativas similares na 
Inglaterra em 1902 e das tentativas do professor Ernest Ruhmer na lago 
Wannsee, na Alemanha.

    O físico canadense Reginald Fessenden disse em uma entrevista:"a 
primeira transmissão verbal foi feita em dezembro de 1900 e , 
gradativamente melhorada até 1904, quando já foi possível transmitir a 
uma distância de 25 milhas.

Voltemos ao Padre Landell. Incompreendido, decepcionado e sem quaisquer 
perspectivas de auxílio material, mas convicto da correção e do valor de 
seus inventos, resolveu patenteá-los nos Estados Unidos, onde então viveu 
por três anos.

    No distrito de Manhattan, em Nova York, instalou um pequeno laboratório 
e já no dia 4 de outubro de 1901 , no escritório de patentes de Washington, 
deu entrada de seu primeiro registro, sob o protocolo de nº  77.576 e aos 
16 de janeiro de 1902 registrou seu segundo invento, sob o número 89.976 
e no dia 13 de fevereiro de 1903, encontramos, sob a patente de número 
142.440, seu terceiro registro.

Diga-se, ainda, que para ingressar com as patentes, não era suficiente 
fornecer os textos e desenhos, mas também os respectivos aparelhos.
O "New York Ilerald"  trouxe no dia 12 de outubro de 1902 uma extensa 
reportagem sobre as tentativas dentro da rádio-telefonia, na qual relata-
se que o professor Ernest Ruhmer teria enviado uma mensagem através de um 
telefone sem fio a muitas milhas de distância. E o jornal compara: ... 
o que é Marconi para a telegrafia sem fio, o é professor Ruhmer no campo 
da telefonia sem fio. O "Herald" explica que Rubmer fez uso da luz como 
condutor para o som, com a ajuda de selênio. A desvantagem neste tipo de 
procedimento é a distancia limitada.

O artigo prossegue: "... e dentre todos esses cientistas o brasileiro 
Padre Roberto Landell de Moura é o mais desconhecido. Uma minoria sabe 
que ele é o pioneiro neste campo. Brighton, na Inglaterra, e Ruhmer, na 
Alemanha, só chegaram recentemente a esses resultados. Muito antes destes 
dois, Landell já havia tido sucesso com suas experiências. Sua patente 
brasileira levou o nome de "Gouradphone".

O jornalista norte-americano que redigiu esta matéria também deu seu 
depoimento pessoal sobre a impressão que lhe causou o Padre Landell.

" Eu falei com um cavalheiro de aproximadamente 40 anos, alto e magro, de 
urna inteligência viva e admirável entusiasmo. Ele era capaz de se 
expressar em inglês absolutamente fluente sobre seus inventos e 
experiências que tem feito em todos esses anos. Contudo, seu primeiro 
pensamento volta-se sempre em primeiro lugar à religião e em segundo, à 
ciência.

	Landell certamente defendeu nesta entrevista a atitude que assumia 
quando a1guém lhe recomendava que abandonasse a batina:
	"Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da 
ciência e do progresso humano. Indivíduos, na Igreja, podem, neste ou 
naquele caso, haver-se oposto a esta verdade; mas fizeram-no por cegueira. 
A verdadeira fé católica não a nega. Embora tenham me acusado de Ter parte 
com o diabo e interrompido meus estudos pela destruição dos meus aparelhos, 
hei de afirmar sempre : isto é assim, e não pode ser de outro modo ... - 
E com amargura; - só agora compreendo Galileu exclamando: E PUR SI MUOVE 1"
As cartas-patente e artigos de jornal estão todos conservados e podem ser 
consultados. Alguns rádio-amadores brasileiros estiveram nos Estados 
Unidos conferindo todos estes documentos.

Desde que, nos últimos anos, tem crescido o interesse em torno da 
personalidade e da vida do Padre Landell, de sua religiosidade e seus 
trabalhos científicos, começou-se a perseguir todas as fontes de informação 
possíveis. Nas igrejas onde atuou foi-se conversar com  coroinhas e fiéis 
que ainda se recordam bem do Padre. Com seus irmãos encontraram-se seus 
diários e manuscritos. Suas prédicas e sermões merecem ser lidos . Sua fé 
em Maria transparece em todos os seus escritos e um amor especial era 
dedicado ~ Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Sua visão sobre 
a mulher e sua posição dentro da família e da sociedade é tão abrangente e 
contemporânea que poderia ter sido escrita para os dias atuais.

Muitos de seus manuscritos e desenhos, em cadernos escolares, ficaram 
engavetados e desconhecidos até 1976, quando um de seus sobrinhos, 
Guilherme Landell de Moura, em Porto Alegre, colocou todos estes documentos 
à disposição. Dentre outros documentos estão cartas de seu amigo Daniel 
Tamagno, em New York, rascunhos de cartas do Padre, consultas a seus 
advogados americanos acerca de suas patentes naquele país, recortes de 
jornais, prestações de contas e pouco mais de 20 desenhos que ele fez de 
suas invenções.

	Muitos desenhos estão desacompanhados de uma explicação mais clara. 
O diretor da TELEBRAS, engenheiro Eduardo Diniz Schlaepfer, que se 
interessava por todos esses subsidios, prontificou-se a examiná-los e 
convocou uma comissão dentro do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da 
Te1ebrás de Campinas a efetuar as pesquisas.  Sete engenheiros trabalharam 
no projeto, que não foi tarefa muito fácil pois muitas folhas continham 
apenas esboços, alguns desenhos não continham qualquer texto, outros 
estavam incompletos, outros rasgados, manchados ou ilegíveis. Contudo, 
dadas as possibilidades, o material foi todo analisado.

	Numa série desses desenhos, após minuciosos cálculos, conclui-se que 
se tratava de um aparelho precursor do "controle remoto por rádio". Bem 
mais tarde, durante a segunda guerra mundial, é que foi difundida a 
tecnologia do controle à distancia, depois que a marinha alemã a 
desenvolveu para aplicação em submarinos.

	O telex foi inventado em 1928, pelo americano Norkum Kleinschmidt. 
Mesmo admitindo-se que Landell jamais tenha construído aparelho semelhante, 
conclui-se, contudo, a partir de seus desenhos, que também nesta área ele 
tinha projetos futuristas. De certo modo, o nome de Landell também pode 
ser ligado ao telex.

     Outro grupo de desenhos muito minuciosos, despertou desde logo o  
interesse dos engenheiros . Eles datam de 1904, portanto a época em que o 
Padre esteve nos Estados Unidos O titulo rezava "telephotorama" ou "ver 
através da distancia". Após estudos aprofundados deste material e 
totalmente re-calculado, o mesmo recebeu o seguinte parecer:
"De um conjunto de quatro desenhos em forma de rascunho, que contém algumas
anotações, podemos concluir que o Padre Landell estava caminhando para um 
processo de transmissão e recepção de imagem, ou seja, a televisão. Nota-se 
que nesses desenhos, de um para outro são acrescentados detalhes que tornam 
mais plausível o funcionamento do sistema. É possível que correções tenham 
sido feitas e estes documentos extraviados.  Como não podemos comprovar 
esta hipótese, ficamos impossibilitados de afirmar categoricamente que o 
Padre Landell foi o inventor de um sistema de televisão que realmente 
funcionasse. Mas, podemos comprovar, sem dúvida, que , pelo menos, seu  
trabalho é precursor da referida invenção, pois alguns dos problemas da 
videocomunicação já tinham sido resolvidos por ele, conforme atestam os 
poucos documentos preservados até nossos dias.

    Nas enciclopédias lemos que o alemão Gottlieb Nipkow, em 1884, 
descobriu um dispositivo que possibilitava a transmissão de imagens a 
curta distância.  Foi o americano Philo T. Farnsworth que aprimorou este 
sistema em 1922. Em  1923 o russo, naturalizado americano, Viadimir K. 
Zworykin descobriu o "iconoscópio" e o "cinescópio", o iconoscópio o 
primeiro sistema de válvulas para o transmissor e o cinescópio, o receptor. 
O escocês John Lodgie Baird fez a primeiro demonstração de televisão em 
1926. Em 1929 Zworykin  apresentou o primeiro sistema completo de televisão.
Numa edição do diário "Ultima hora", de Porto Alegre, aos 13 de novembro de 
1924, Landell falou de sua idéia e da possibilidade de transmissão de 
imagem a longa distância.

No ano de 1939 o casal de cientistas Semyon e Valentina Kirlian descobriu 
uni processo fotográfico capaz de reproduzir "fotograficamente o campo de 
irradíação" . Através deste processo descobriu-se que todos os corpos, 
móveis e imóveis, estão envolvidos por uma aura colorida, não visível a 
olho nu. Os Kirlians sabiam, desde o inicio, que se trata de uma energia 
em estreita relação com a própria vida. Este é o efeito Kirlian.

     Dentre os escritos do Padre Landell do ano de 1907 há alguns sob o 
titulo "O Perianto ". Logo nos primeiros trechos 1ê-se:
	" Todo o corpo humano está como que envolvido de um elemento de forma 
vaporosa, mais ou menos densa, segundo a natureza ou o estado do indivíduo 
ou ambiente em que ele se acha. Esse elemento, quando adquire uma tensão 
capaz de vencer os obstáculos  que se opõem à sua expansão, escoa do corpo 
humano sob forma de descargas disruptivas ou silenciosas, tal qual como se 
sucede com a eletricidade."

	Seguem, ainda, oito parágrafos com explanações detalhadas sobre o 
"perianto" Do ultimo, vale ressaltar: 
".. Do que acabamos de dizer, podemos tirar os seguintes(corolários: 
- que o perianto, em circunstâncias apropriadas, pode ser fotografado e 
justificando seu nome, isto e, coisa que envolve o corpo humano sob uma 
capa ou zona vaporosa, mais ou menos densa; - e que ele pode ser 
transportado da placa natural da retina para a de uma câmara fotográfica."

    Landell não ficou apenas nessa teoria. Ele chegou a fotografar este 
efeito de luz. Seu sobrinho Inácio Landell de Moura disse que após a morte 
de seu tio encontrou uma caixa cheia de chapas fotográficas. Mandou ampliar 
as fotos e viu "coisas misteriosas" que ninguém sabia explicar.  Inocente, 
entregou-as a um padre que imediatamente as recolheu e nunca mais devolveu,
alegando que aquele material poderia comprometer a Igreja e talvez essas 
fotografias ainda estejam arquivadas em alguma igreja, em algum lugar.  

   Mais tarde, Inácio continuou tentando recuperar esse material, sem 
obter sucesso. Não seria o "efeito-Kirlian" que estaria registrado 
naquelas fotografias?

	Para encerrar esta pequena crônica sobre o religioso e o cientista 
Padre Landell de Moura, lembremo-nos de algumas palavras que ele próprio 
pronunciou e escreveu:
	"Os americanos, decorridos os 17 anos de prazo que marca a lei das 
patentes, puseram em execução prática as minhas teorias. Não sou menos 
feliz por isso. Eu vi sempre, nas minhas descobertas, uma dádiva de Deus. 
E como, além disso, sempre trabalhei para o bem da humanidade, tentando ao 
mesmo tempo provar que a religião não é incompatível com a ciência, folgo 
em ver realizado, na prática utilitária, aquilo que foi o meu sonho de 
muitos dias, de muitos meses, de muitos anos. Deus fez uso da minha 
modesta pessoa para ajudar a esclarecer um pouco alguns mistérios da 
natureza."

    No ano de 1927 Landell tornou-se Monsenhor e arcediago da Capela da 
Beneficência, em Porto Alegre.

    O Padre faleceu em Porto Alegre, aos 30 de julho de 1928, amparado, 
em último recurso, por seu irmão Dr. João Landell de Moura.

Nota:	Todos  os dados ~ deste relatório, fatos históricos, datas e 
citações , bem como os números das patentes foram extraídos dos seguintes 
livros:

1) Ernani Fornari - O incrível Padre Landell de Moura, Editora Globo, 1960
2) Fernando Cauduro - "O homem que apertou o botão da comunicação"
Editora FEPLAM - Porto Alegre  1977
3) Armaldo Nascimento
Murilio Sousa Reis- "Subsídios para saldar uma dívida"
editado em Portugal  - 1982
4) B.Hamilton Almeida- "Ou outro lado da comunicação" 
A saga do Padre Landeli
Editora Sulina, Porto Alegre -1983