"O TELÉFORO" 

Publicado no Jornal do Comércio em 14 de Junho de 1899 
Colaboração: Rodrigo Moura

"O TELÉFORO"

O 'Diário Hespanhol', depois de várias considerações sobre o telégrafo sem fio e de citar diversas experiências com feliz resultado, diz o seguinte em artigo sob o título supra:

'Enquanto essas colossais conquistas têm lugar no velho mundo, vejamos as que na mesma ordem de progressos alcançam os preclaros talentos americanos, filhos deste fecundíssimo Brasil.

O Rev. Padre R. Landell tem a mesma linha máxima de partida que os inventores europeus, mas difere quanto aos aparelhos de emissão e recepção e outros agentes que entram por muito na facilidade de construção e funcionamento dos seus diferentes mecanismos.

O Padre Landell já conseguiu transmitir a palavra a uma distância maior de sete mil metros, servindo-se do éter, das correntes telúricas e do ar eletrizado; o aparelho transmissor, porém, colocado no ponto de partida, como o receptor no ponto de chegada, são, repetimos, inteiramente distintos dos das invenções européias, e mais, não emprega tubos de cristal, nem limaduras metálicas de espécie alguma em seu maravilhoso trabalho. 

Os mecanismos de que usa recolhem a voz e a lançam através do espaço em uma direção determinada, seguindo invariavelmente o caminho mais curto que medeia entre o transmissor e o receptor, isto é, uma linha inteiramente reta, seja qual for o estado atmosférico no instante em que se verifica a transmissão.

Nas diversas experiências executadas recentemente notou o inteligente inventor, que a zona que à mercê das vibrações do éter percorre o som articulado, se vai alargando à medida que se aproxima do receptor, de modo que, colocando-se vários desses receptores dentro do mesmo campo de recepção, alguns metros separados uns dos outros, todos eles recebem ao mesmo tempo com a mesma clareza a palavra transmitida. Deste resultado, que se saiba, não o obteve sábio algum, nem no velho nem no novo mundo, cabe ao padre Landell toda a glória da invenção.

Para tal alcançar não se pense que o infatigável homem de ciência foi de um salto, há muitos anos que faz experiências e estuda metodicamente, entregando-se inteiramente à consecução do triunfo que acaba de conseguir, sujeito por certo às leis da mais esquisita precisão, das quais fez nascer o seu pequeno aparelho transmissor e o seu pequeníssimo receptor.
Como trabalho, um e outro são notáveis, como se compreenderá do seguinte:
Colocado o aparelho transmissor em um compartimento qualquer junto a uma janela aberta, em frente da qual e a seis ou sete mil metros de distância esteja colocado ao ar livre o receptor, poderão falar duas pessoas como se estivessem a um metro de distância uma da outra.

Como se explica essa surpreendente operação?
Eis o que diz o inventor:

'O aparelho transmissor recolhe a palavra pronunciada com toda a naturalidade. Em virtude da especialidade de sua construção, imprime-lhe a força suficiente para que o fluido etérico, que constantemente invade o dito aparelho e que está unido por invisível e elástica cadeia com o receptor posto a seis ou sete mil milhas de distância, de vibração em vibração, aumentando estas de poder e de rapidez à proporção que a palavra ou o som se afastam o ponto de partida, transpõe-se a referida distância com a ligeireza do pensamento, isto é, o éter serve no caso presente da mesma forma que antes servia o fio de metal, como condutor da linguagem telegráfica, com esta diferença, o fio metálico aprisiona a eletricidade dentro de uma zona limitada a seu próprio diâmetro na trajetória que percorre, entretanto que a onda sonora ou a palavra transmitida, servindo-lhes de veículo condutor o éter, as corrente telúricas e o ar eletrizado, ao passar do transmissor ao receptor, estabelece em redor da reta invisível, em que se apóia um campo largo em ativa vibração, cujas dimensões aumentam, como antes dissemos, à medida que se vai aproximando do plano de recepção.'"