Heróis brasileiros

Wladimir Guglinski

No início de 1999 a revista Veja publicou uma matéria sobre um brasileiro, o padre Moura Landell, que construiu um aparelho transmissor de ondas de rádio, dois anos antes do mundo conhecer a invenção de Marconi.

O padre brasileiro fez transmissões entre dois bairros de S. Paulo, e um repórter britânico cobriu o evento. Infelizmente o padre era acusado de ser charlatão, bruxo, etc., pelos próprios brasileiros, e por isso decidiu provar o contrário de maneira definitiva, através de uma experiência inequívoca. Procurou a Presidência da República, para pedir emprestado dois navios à Marinha, para fazer transmissões entre eles. Dessa forma não poderiam dizer que ele enterrava fios sob o chão, etc. e tal.

No Gabinete da Presidência foi atendido não pelo Presidente, mas por um Secretário, um asno que teve a capacidade de mudar a História, e contribuir para dar continuidade ao complexo tupiniquim do brasileiro. Durante a entrevista com o Secretário, como só acontece com os grandes gênios que prevêem com antecedência de dezenas de anos as repercussões de suas invenções, o padre afirmou que no futuro sua invenção seria usada para transmitir mensagens entre naves situadas em planetas diferentes. Por isso, depois da entrevista, o Secretário escreveu um bilhetinho para o Presidente, informando-o de que o infeliz padre era maluco. Dessa forma o Brasil perdeu a chance de ter a paternidade da invenção do rádio. Um fato muito lamentável, pois, quem sabe, se fosse o patrono reconhecido internacionalmente de tão importante invento, esse reconhecimento poderia ter desferido um golpe mortal sobre o complexo tupiniquim do brasileiro, e, passando a acreditar em sua potencialidade criadora, nosso povo poderia ter construído um país muito melhor do que esse em que vivemos.

O episódio com o padre Landell de Moura foi lembrado recentemente em uma entrevista da revista Planeta, onde a pessoa estrevistada expôs sua opinião: "O azar do padre foi ser brasileiro". O melhor seria dizer que a desgraça do padre foi que ele não conhecia o brasileiro. Se conhecesse, e tivesse a perspicácia de Santos Dumont, teria ido divulgar sua invenção fora desse país de bárbaros que é nosso Brasil. Acreditou nos brasileiros, recusou um convite dos EUA para ir desenvolver seu trabalho lá, e ficou por aqui, para morrer na miséria, desconhecido e esquecido.

Mas quero aqui abordar um outro ponto, e é o seguinte: nem eu, nem ninguém, quando estudou História do Brasil na escola, jamais ouviu algum professor falar sobre o padre Landell. A primeira vez em que eu soube de sua existência foi através da reportagem da Veja em 1999. Então cabe aqui a pergunta: "por que no programa escolar de História do Brasil não está incluída a História do Padre Landell?".

Para tentarmos entender a injustiça que o próprio brasileiro comete nos dias de hoje contra o padre (isto é, continua cometendo, desde o tempo daquele Secretário imbecil), vamos comparar seu potencial criador com o de um outro gênio brasileiro: Rui Barbosa.

Na escola aprendemos que Rui Barbosa foi um gênio respeitado internacionalmente. Mas precisamos nos perguntar: qual foi o trabalho que ele legou à humanidade? Pois o trabalho de um gênio precisa ser avaliado pelo poder de transformação que ele proporciona à posteridade. E no caso de Rui Barbosa, ele nada nos deixou. Foi apenas um homem de extrema inteligência, mas infelizmente não tinha o poder criador dos gênios. A Europa está repleta de homens do mesmo quilate de Rui Barbosa, e nós nem ouvimos falar deles, da mesma forma que na Europa ninguém sabe quem foi Rui Barbosa.

Então, de onde vem o prestígio de Rui Barbosa?

Bem, primeiro temos de nos lembrar daquele provérbio que diz que "em terra de cego quem tem um olho é rei". Como o Brasil carece de verdadeiros gênios, qualquer inteligência superior precisa ser promovida à categoria de gênio. Convivemos com isso diariamente, pois já vimos a mídia chamar de gênio cantores como Caetano Veloso.

A segunda razão do engrandecimento de Rui Barbosa pelos brasileiros se deve também ao complexo tupiniquim. Isto porque, na sua época, a inteligência de Rui Barbosa foi reconhecida internacionalmente. Ora, o que o brasileiro mais respeita é a opinião estrangeira, ao passo que, ao contrário, deprecia a própria opinião nacional. E isso também explica o desprezo do brasileiro pelo padre Landell: ele não foi reconhecido internacionalmente.

E há um fato que confirma nosso argumento. Na virada do século, uma revista promoveu uma votação, para que os brasileiros elegessem o brasileiro mais ilustre do século, em diversos campos, como esporte, música, ciência, etc. O padre Landell não foi lembrado pelos organizadores da revista.

Mas por que nenhum brasileiro tentou, ainda, fazer justiça ao genial padre, através de um projeto que o inclua no programa escolar de História do Brasil? Era de se esperar que algum deputado já tivesse elaborado um projeto de lei, para incluir o padre Landell no currículo escolar.

A resposta está, novamente, no complexo do brasileiro. Pois seria certamente constrangedor explicar para os alunos o motivo pelo qual os brasileiros não deram o apoio ao trabalho do padre, e que por causa dessa inépcia do brasileiro nosso país deixou de ter a honra de ser o descobridor da invenção que revolucionou a divulgação da informação, que hoje culmina com a propagação da Internet pelo planeta.Ou seja, nessa estória, o brasileiro vai ter que assumir o papel de vilão, e isso não é nada lisonjeiro. E nós sabemos que nas escolas os professores gostam de contar para seus alunos só estórias glamourosas, de heróis de que os alunos possam se orgulhar. Então, para não passarem vergonha e constrangimento perante os alunos, continuam a serem injustos com o padre inventor que, ao lado de Santos Dumont, ocupa o degrau máximo no pódio das criações humanas.

Juiz de Fora, 3 de Abril de 2001

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Atualizada toda sexta-feira.

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