RÁDIO: UMA NOVA VISÃO DE SUA HISTÓRIA
 

    Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre (RS) no dia 21 de Janeiro de 1861. Filho de Inácio Ferreira de Moura e Sara Mariana Landell de Moura, cursou as primeiras letras no Colégio dos Jesuitas, em São Leopoldo (RS). Apaixonado pelas ciências físicas a elas se dedicou de corpo e alma. Fez os estudos superiores em Roma, onde cursou o Colégio Pio Americano e depois a Universidade Gregoriana, ali desenvolvendo a teoria sobre a "Universidade das Forças e a Harmonia do Universo".

Em 1886 era ordenado sacerdote e regressando ao Brasil foi nomeado coadjutor do capelão do Paço Imperial, fundação que lhe propiciava manter longas conversas sobre ciência com outro estudioso da matéria - D.Pedro II.

No ano seguinte era transferido para Campinas (SP) onde ocupava todo o seu tempo disponível incrementando suas experiências. Em 1893, depois de anos a fio de pesquisas chegava à conclusão que todo o movimento vibratório que até hoje, como no futuro, pode ser transmitido através de um condutor, poderá também ser transmitido através de um feixe luminoso e, por isso mesmo, poderá ser transmitido também sem o auxílio deste.

Estava, assim, enunciada a teoria da radiodifusão !

Convencido de que a sua teoria seria praticável, começou Landell de Moura a construir o seu primeiro invento: um aparelho que transmitia e recebia a voz humana, sem nenhum fio entre o transmissor e o receptor.

Lutando contra toda sorte de dificuldades e construindo ele mesmo as peças que necessitava, quando finalmente ficou pronto, o aparelho de Landell falava ! Era o ano de 1893. Estava inventado o rádio, por um brasileiro !

O assombro foi geral e a incredulidade popular não tinha tamanho ao ouvir aquele pequeno aparelho sem fios, falando sozinho.

Longe de alcançar a consagração, o invento de Pe. Landell de Moura, contudo, só lhe trouxe aborrecimentos. Passaram a considerá-lo um louco, impostor e alguns até de bruxo. A ignorância e o fanatismo religioso voltou-se contra o inventor e o povo, aproveitando-se de sua ausência momentânea, arrombou sua casa paroquial, quebrando e danificando todos os seus inventos já construídos.

Persistente, Landell de Moura não se permitiu abater. Com enorme sacrifício reconstruiu seu laboratório, consertou todos os seus inventos destruídos pela fúria popular e constituiu outros tantos. Sempre sozinho e desamparado, sem auxilio de qualquer espécie a partir daí desenvolveu a fase mais produtiva de sua profícua carreira de inventor, tão notável, quando esquecida.

Deste período datam o Telauxiofono, a última palavra a meu ver, sobre e telefonia com fio, não só pelo vigor e legibilidade com que transmite a palavra, mas também porque com eles se obtêm todos os efeitos do telefone "altoparlatore", bastando um só transmissor, por maior que seja o número de concertantes, segundo esclarecia o inventor em suas anotações. Também é desta época o Teleteton, definido por Landell de Moura como uma espécie de telegrafia fonética com o qual, sem fio, duas pessoas podem se comunicar, sem que sejam ouvidas por outras, e o Edifono aparelho que serve para dulcificar e deputar, das vibrações parasitas, a voz fonografada, reproduzindo-a ao natural - era o que hoje se conhece por "HI-FI".

O Telefônio, patenteado no Brasil em 1900, sob número 3279,   20 anos antes de Marconi, transmitia à grande distância a voz, as notas musicais e os ruídos apenas sensíveis ao ouvido, como o tique-taque do relógio.

O Anematofono, definido por Landell como um aparelho sem fio com o qual obtem-se todos os efeitos da telefonia comum, porém com muito mais nitidez e segurança, mesmo com ventos fortes e mau tempo, merecia especial atenção do inventor, pelas leis inteiramente novas que revela.

O caleofono, que também data daquela época, é o interfone de nossos dias.

De todos os seus inventos, inúmeras demonstrações públicas foram feitas por Landell na tentativa frustrada de fazer alguém se interessar por elas e possibilitar a exploração comercial, em benefício de toda a humanidade.

Abatido e desesperado pelo desinteresse e a apatia das autoridades brasileiras por seus inventos, endereçou carta ao Cônsul inglês, Mr. C.P.Lipton, com todos os detalhes e esquemas de seus inventos, oferecendo-os ao governo inglês, e exigindo em troca apenas a criação pelo governo britânico de uma instituição de amparo e educação para os filhos destes bravos que têm sucumbido nos campos desta terrível pugna, pedindo para si apenas o necessário para viver e para continuar com os seus estudos e experiências cientificas.

Não obtendo respostas do governo britânico, em 1901 Landell de Moura viajou para os Estados Unidos com o objetivo de patentear seus inventos. Por exigência das autoridades americanas, para patentea-las viu-se obrigado a construir um modelo de cada invento. Sem outra alternativa, lutando contra toda sorte de dificuldades e mesmo humilhações, só vencidas por sua obstinação e amor à ciência, reconstruiu um a um seus inventos em Nova York, lá demorando-se por mais de três anos.

Foi também em Nova York que o Pe. Landell de Moura passou os piores dias de sua vida. Assediado por empresários de uma grande indústria norte-americana que queria comprar os seus inventos por quantia irrisória e ainda com a condição de assumir aquela a paternidade das invenções, ao repudiar a aviltante proposta, passou a ser boicotado por todos os lados.

Vencendo todas as dificuldades, finalmente a 4 de outubro de 1901, consegue protocolar sob número 77.576 no Comissário de Patentes dos Estados Unidos da América o seu requerimento para a patente do Telefone sem fio, que deferida em 1904, tomou o número 775.337. Neste mesmo ano obteve as patentes número 775.846 para o Telegrafo sem fio e a de número 771.917 para o Transmissor de ondas.

Na documentação apresenta ao Comissário de Patentes, instruído com gráficos, desenhos e explanações detalhadas, o inventor informava que utilizava selênio, centelhadores e pedia prioridade para o uso de uma grade que juntamente com uma lâmpada entre três etelroides seriam os princípios da válvula fundamental na radiofonia.

Curiosamente, em 1907 o mundo tomava conhecimento que tal lâmpada havia sido inventada pelo americano Lee De Forest. . .

Nas detalhadas explicações apresentadas por Pe. Landell de Moura ao Comissário de Patentes ele mencionava as ondas de Hertz, os tubos de Crookes, as caixas de Faraday, a bobina de Ruhmkopff, demonstrando ser um cientista perfeitamente atualizado em Física. Seus escritos, porém, não fazem qualquer referência à Marconi. . .

Não conseguindo fazer demonstração da funcionalidade de seus inventos nos Estados Unidos, desiludido, retornou ao Brasil, onde esperava receber o apoio das autoridades e conferir à sua terra a primazia de por em prática os seus inventos.

Com este propósito, solicitou ao Presidente da República, Rodrigues Alves dois navios de guerra para que, colocados ao largo, se comunicassem entre sí e com a terra, por meio de rádio - a mesma experiência feita por Marconi, anos após, com o apoio do governo italiano. Para saber a que distância da terra queria Landell os navios fundeados, o Presidente mandou um assessor ao cientista, que ouviu de Landell a seguinte resposta: Em alto mar, na maior distância possível, quantas milhas pudesse, porque meus aparelhos podem estabelecer comunicações com qualquer ponto da terra, por mais afastados que estejam; aliás, isto presentemente, porque futuramente servirão até mesmo para comunicação interplanetárias.

Boquiaberto o assessor presidencial transmitiu ao Presidente a seguinte informação: Excelência, o tal padre é positivamente louco!   E a experiência, assim, não saiu. . .

Mais uma vez Landell de Moura viu frustrada a oportunidade de testar seus inventos e colocá-los a serviços de sua pátria.

Debitado aos grandes equívocos involuntários ou não da História, na literatura sobre os grandes inventos da humanidade, nem de passagem é citado o nome ou se faz alusão ao Pe. Landell de Moura como inventor do rádio transmissor, muito embora seus inventos surgissem antes e fosse tecnicamente mais avançados que o rudimentar "telégrafo" patenteado por Marconi em 1896, três anos após Landell de Moura transmitir de São Paulo sons feitos de palavras articuladas a uma distância de 8 quilômetros.

E já que se repara nesta ocasião os equívocos históricos, a oportunidade também é propícia para tirar da galeria dos esquecidos a figura de Lyvio Gomes Moreira, o paranaense que se tornou o primeiro radioamador brasileiro com o indicativo SQ-1, depois SB-3IG e posteriormente PY5AG.

Inúmeros livros especializados em radioamadorismo dão conta de que São Paulo e Rio de Janeiro foram os principais estados brasileiros a possuir radioamadores e até apontam Livio Moreira - telegrafista do DCT paulista como seu precursor. Na realidade, Livio Gomes Moreira era telegrafista, mas do DCT do Paraná, chegando a exercer o cargo de Delegado da Labre no Paraná.

Com seus próprios meios construiu seu equipamento de rádio - um complicado conjunto de "3 andares" ao qual deu o curioso nome de "espirocheta".

No primeiro andar, como ele dizia, se encontravam os três componentes " parecis"; no segundo andar, todo feito de madeira de pinho, era embutido o modulador de 3 Watts; no terceiro andar ficava o tanque final onde também se localizava o oscilador que possuia a famosa válvula 6L6.

Havia ainda o RX que procurava imitar o SX-17, com pré-seletor, o Xtal e o silenciador de ruidos.

Curiosamente o Paraná não aparece mencionado como precursor do radioamadorismo no Brasil, equívoco da História que a exemplo da injustiça que se comete contra o Pe. Roberto Landell de Moura, precisa ser reparada, em homenagem a fidelidade que a História deve tanto quanto possível retratar.